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Transfusão de Sangue

Hemoglobina em níveis normais possibilitam melhor qualidade de vida

O tratamento com transfusões periódicas (a cada 12, 20 ou 30 dias) é necessário para manter a hemoglobina em níveis normais (entre 9 g/dL e 10,5 g/dL), possibilitando melhor qualidade de vida ao portador da talassemia.

Antes de realizar o procedimento, o sangue deve primeiro sofrer diversas avaliações e procedimentos, que visam assegurar a sua qualidade, bem como a compatibilidade com o sangue do receptor. Além disso, a pessoa com talassemia deve participar ativamente do processo: devem ser esclarecidos com o médico todas as dúvidas a respeito de termos e técnicas envolvendo esta terapia, e deve haver sempre o cuidado de checar os rótulos do produto, bem como atentar para os sinais e sintomas de seu corpo.

Verifique abaixo tudo o que a pessoa com talassemia e seus parentes devem saber, de maneira a assegurar os melhores resultados, com os menores efeitos colaterais.

O hemocomponente a ser transfundido

A partir de cada doador, uma bolsa contendo cerca de 450 mL de sangue é coletada. Uma vez que a pessoa com talassemia necessita realmente apenas da porção vermelha (hemácias), o sangue coletado sofre um processo de centrifugação e separação dos hemocomponentes. Após todo o procedimento, o resultado final é um concentrado de hemácias (ou CH), indicado para a transfusão.

Você sabia?
Caso a pessoa com talassemia recebesse o sangue total – e não apenas o concentrado de hemácias – durante as transfusões, poderia haver uma sobrecarga dos demais componentes em sua circulação, causando problemas sérios como insuficiência cardíaca e acúmulo de líquido (edema) nos pulmões.

Após ser centrifugado, o sangue deve ser filtrado

Filtros especiais conectados às bolsas de coleta realizam uma filtragem já durante a doação. O procedimento – mandatório nos hemocentros que servem ao SUS – é o mais eficiente para remoção dos leucócitos (células brancas) provindos do sangue do doador. De outra maneira, células de defesa (leucócitos) do doador podem liberar substâncias chamadas citocinas, as quais podem causar febre ou outras reações desfavoráveis no organismo do receptor após a transfusão. Mais raramente, os leucócitos podem ser portadores de microorganismos como Yersinia enterocolitica e o Citomegalovirus – capazes de causar infecções no receptor, particularmente se sua imunidade não estiver bem.

Notas: O índice de contaminação por Y enterocolitica tem sido descrito como raro – cerca de 1 para 6,5 milhões de transfusão. A citomegalovirose tem sido importante apenas em lactentes e pacientes imunossuprimidos, visto que epidemiologicamente 90% da população já contraiu o vírus e é imune. Nos grupos especificados lança-se mão de sangue especial, com sorologia negativa para CMV, pois nestes a infecção pode ser devastadora. Entretanto ao leucócitos também podem ser importantes na determinação de Doença Enxerto Versus Hospedeiro (GVHD – pacientes aparentados com os doadores e imunossuprimidos, utiliza-se a bolsa desleucotizada e irradiada) e outros efeitos como a TRALI (Lesão Pulmonar Aguda Associada à Transfusão). Existem hoje processos de confecção de bolsas pobres em leucócitos já no processo de produção (Bolsa "Top & Bottom"). A maioria dos hemocentros está evoluindo para adoção desses procedimentos.

Advertência: O filtro do sangue pode também ocorrer no laboratório do banco de sangue. O problema é que, no período entre a doação e o momento em que os leucócitos são filtrados, as citocinas podem ter já sido liberadas, e estas podem se distribuir por todo o fluido. Ao serem transfundidas podem ocasionar calafrios, sensação de frio e febre em alguns receptores durante a transfusão. Uma terceira possibilidade é a de se utilizarem filtros de leito, os quais filtram os leucócitos no momento da transfusão. Este processo apresenta o mesmo problema, uma vez que os leucócitos terão estado presentes – e liberado citocinas – durante todo o período de estoque. Apresenta também o problema de reduzir o fluxo e interferir com a passagem das hemácias. Assim, para pessoas com talassemia, o ideal é que a filtragem seja feita desde já no momento da coleta.

Conservação do Concentrado de Hemácias

Após a remoção do plasma, das plaquetas e dos leucócitos, por filtração, algumas substâncias são adicionadas ao concentrado de hemácias para preservar as hemácias (células vermelhas) e a hemoglobina do doador, saudáveis. Alguns nutrientes (adenina, fosfato) aumentam a sobrevida das hemácias. Um anticoagulante (citrato) impede que o sangue armazenado coagule e se torne espesso, impossível de transfundir.

A Federação Internacional de Talassemia recomenda que hemácias armazenadas em solução aditiva sejam utilizadas em até 2 semanas de estocagem, e hemácias armazenadas em CPDA em menor tempo, o mais recente possível. Esses prazos são recomendações, mas pode haver flexibilidade devido a outros fatores considerados importantes.

Um sangue para chamar de seu

A tipagem e fenotipagem da pessoa com talassemia é o primeiro passo para definir qual é o melhor concentrado de hemácias para cada pessoa com talassemia,, assegurando-se eficiência e segurança da transfusão.

Um tipo sanguíneo é definido, não apenas, pelos sistemas ABO e Rh. Há hoje um total de 29 sistemas conhecidos de antígenos sanguíneos, resultando da combinação de mais de 600 antígenos em seu total, os quais podem se combinar e estar presentes de diferentes formas na superfície das hemácias. As hemácias de cada indivíduo têm uma combinação própria (ID) desses antígenos. Quanto mais semelhante a combinação (ID) da pessoa com talassemia e o seu doador, menor o risco de que o organismo do receptor, eventualmente, crie anticorpos direcionados contra os antígenos "estranhos" nas células do doador. Reações contra determinados antígenos poderão se reproduzir, no futuro, se algum doador apresentar os mesmos antígenos estranhos. Isso poderá diminuir a eficácia ou até inviabilizar alguma transfusão.

O teste de fenotipagem, realizado a partir de uma amostra de sangue, é o mais indicado para se descobrir qual a "ID" (o fenótipo das hemácias) de cada pessoa com talassemia. Deve ser feito logo que possível – isso é, logo após o diagnóstico de talassemia. De outra maneira, a presença de sangue transfundido misturado ao do paciente poderá confundir e até invalidar a análise – o que tornará necessário a genotipagem, que é um processo mais caro e complexo.

Você sabia?
A despeito de todos os esforços para se achar sangue compatível, em torno de 3% a 28% das pessoas com talassemia acabam desenvolvendo anticorpos contra algum antígeno nos doadores. A reação resultante pode causar a chamada Reação Hemolítica Pós- Transfusional Tardia, e prejudicar os efeitos da transfusão. A Reação Hemolítica Imediata (mais comum com incompatibilidades quanto aos sistemas ABO e Rh, determinados em todos os pacientes) é mais rara e geralmente pode ser atribuída a erro humano (com tipagem ou rotulagem inadequada do doador e/ou do receptor). Para se evitar as principais complicações, recomenda-se a tipagem quanto aos grupos ABO, Rhesus (RH), Kell, Kidd and Duffy – mais associados a reações hemolíticas - e sua verificação no momento de compatibilização do sangue doado com o sangue recebido.

Advertência: hoje em dia, basta verificar o rótulo de uma bolsa de sangue para se checar se esta foi filtrada e fenotipada. Vale a pena mencionar que, ao invés de "filtrada" a bolsa pode ser rotulada como "leucodepletada" ou "deleucocitada", o que significa essencialmente o mesmo – ou seja, que os leucócitos foram removidos.

Algumas reações transfusionais possíveis

Reação Hemolítica Imediata: felizmente rara, geralmente resulta da transfusão de sangue incompatível quanto aos sistemas ABO e Rh, mais potentes. O paciente sente dor no local de punção, imediatamente ao início da transfusão. Outras sensações de incômodo, como dor torácica, podem resultar. Dependendo da quantidade de sangue transfundido, a reação pode atingir todo o organismo, com hemólise – intravascular e imediata -, e desencadeamento de reações sistêmicas, podendo levar à morte.

A determinação destes é obrigatória em cada transfusão, e a transfusão incompatível, neste caso, somente é ocasionada por erro humano. A pessoa com talassemia é estimulada a conhecer – e checar, antes de cada transfusão – pelo menos seu tipo sanguíneo quanto aos grupos ABO e Rh.

Reação Hemolítica Tardia: resulta da reação a algum dos outros sistemas de antígenos, geralmente menos potentes. A hemólise não é imediata, mas o sistema imune do receptor "marca" as hemácias do doador, que serão logo destruídas como se fossem hemácias "velhas"". Essa reação não ameaça a vida, mas pode rapidamente - num prazo de 24h a 48h - eliminar todas as hemácias transfundidas, com resultados prejudiciais. Esta reação demonstra a importância da fenotipagem em pessoas com talassemia.

Reação Febril Não Hemolítica: aumento de 1°C a partir da temperatura do paciente imediatamente antes da transfusão, sem outra causa aparente. Pode ser causada por substâncias solúveis ou, menos comumente, microorganismos presentes em pequena quantidade na bolsa de sangue.

Reação Alérgica ou Urticariforme: pode começar com uma simples coceira, evoluir para urticaria em todo o corpo e até mesmo levar a edema de glote (impedindo a passagem do ar e a respiração). Produzida por sensibilidade a antígenos presentes principalmente (mas não limitados) no plasma. Pacientes que apresentam esta reação podem ser tratados com o uso de hemácias lavadas e/ou com aplicação prévia à transfusão de medicamentos antialérgicos.

Outras formas de assegurar um sangue seguro a pessoas com talassemia

- Encorajamento à políticas de doação regular na população: associações como a ABRASTA se mobilizam neste sentido, já que, além de assegurar o estoque dos bancos de sangue, estimula o doador mais conscientizado (capaz de doar numa base anual ou periódica) e, portanto, com comportamentos que impõem menor risco aos pacientes.

Este cuidado pode ser essencial para garantir qualidade compatível com o quadro clínico de talassemia. Hoje em dia já existem diversos requisitos legais para serviços transfusionais públicos e privados no país, tais como a exigência de validação - bem como manutenção preventiva e corretiva - de todos os equipamentos, e da participação em programas de Controle de Qualidade Externos, e da realização de Controles Internos e Educação Continuada de todos os funcionários, de uma maneira sistemática.

- Incluir o NAT no processamento dos hemocomponentes: o Teste do Ácido Nucléico, o NAT, está disponível no Brasil em bancos de sangue particulares e em poucos serviços públicos. Utilizando técnicas de biologia molecular, ele diminui drasticamente o período da "janela imunológica" – que corresponde ao tempo decorrente entre a infecção de um paciente (ou doador) por vírus, como a Hepatite ou HIV, antes da doação do sangue. Calcula-se que a implantação do NAT resultaria em uma diminuição em torno de 50% da transmissão pelo sangue de doenças virais.

- Vacinação: as pessoas com talassemia que necessitam de transfusões periódicas devem recorrer às vacinas existentes, de maneira a permanecer protegidos contra estas doenças já antes da primeira transfusão.

- Sangue lavado: o processo de lavagem de um concentrado de hemácias com solução salina fisiológica é recomendado em caso de reação alérgica ou urticaria pós-transfusional, particularmente se não for respondido à administração de anti-histamínicos (antialérgicos). Esta complicação pode prejudicar a pele e progredir até o edema de glote, com parada respiratória e morte. Entretanto, após a lavagem, este concentrado de hemácias estará disponível apenas por 24h – caso não utilizado, terá de ser descartado, para se evitar uma possível contaminação com crescimento bacteriano. Outros pacientes que se beneficiam da lavagem são aqueles que apresentam (além da talassemia) uma ausência inata de IgA (imunoglobulina A, um tipo de anticorpo natural). O sistema imunológico destes pacientes pode causar uma reação alérgica grave contra a IgA presente no sangue do doador.

* IgA é o anticorpo que realiza uma importante função de defesa no organismo, quando a invasão se dá através da pele ou membranas mucosas (superfícies protegidas, como o nariz, olhos, pulmão e intestinos). A IgA é encontrada no sangue e em algumas secreções, como a do sistema gastrointestinal e pulmão, e também no sangue materno.






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