Depoimentos

 


Poliana
“Uma homenagem às mães de talassêmicos”

“O homem tem uma grande tendência para o esquecimento! Mas, de vez em quando, é bom buscar as coisas que ficaram amassadas lá no fundo”.

Mário Lago – “Bagaço de Beira de Estrada”

Sou mãe de Poliana, que foi uma criança linda, consciente de seu problema, muito inteligente, saudável e feliz.

Noutros tempos, cheguei a pensar, por que eu? Por que ela? Por que nós? Hoje, tudo isso é algo que se acrescenta à nossa redenção.

Por meio dela, fazemos coisas que, de outra forma, não faríamos. Fundamos e pertencemos a esta associação que auxilia outras pessoas com o mesmo problema. Partilhamos o sofrimento de outros brasileiros descendentes de italianos e de outras nacionalidades e também sofremos com nossos talassêmicos italianos, que são um número maior, são mais organizados e bem assistidos pelo seu governo.

Mas a nossa querida ABRASTA (Associação Brasileira dos Talassemicos) tem conseguido grandes vitórias e, em um futuro bem próximo, os talassêmicos brasileiros terão melhores condições de tratamento.

Poliana é talassêmica major, é bonita, inteligente e feliz. Tem duas irmãs mais velhas, Patrícia e Priscila, e o mais novo é um rapazinho louro de olhos azuis e bem danado.

Mas outrora, o quadro era outro. Morávamos numa cidade pequena do interior de São Paulo, onde meu marido era delegado de polícia, e eu, professora na escola estadual daquela cidade.

Tivemos as três primeiras filhas em pouco tempo, recebendo cada uma delas como um presente de Deus. A primeira boneca, loura e cheia de vida; a segunda boneca, morena e risonha; e a terceira, Poliana, diferente das outras, linda criança rosada e gorda.

Depois de seu primeiro ano de vida, a triste revelação: Poliana sofria de uma anemia que não se sabia bem o que era. O pediatra famoso daquela pequena cidade administrava injeções de ferro, e ela tinha febres altíssimas. Depois de nossas idas à capital, São Paulo, onde se constatou a talassemia, uma médica conhecida da família nos orientou para que fizéssemos o tratamento no interior, na cidade de Ribeirão Preto, com o doutor Vicente Coutinho, médico moço, com qualidades de pesquisador, muito positivo e tranqüilo, tanto que nos auxiliou a aceitar o problema e, pesquisando a família, aconselhando a iniciar o tratamento adequado de uma forma uniforme e constante.

E, em meados de março de 1974, começamos o tratamento de Poliana, com todo aquele peso de sobrecarga emocional dos avós e da cidade pequena também.

Em julho do mesmo ano, descobri que havia engravidado novamente, e os dias de desespero recomeçaram. E nessa hora, surgem os conselhos dos que nos rodeiam, dos amigos, dos professores e dos profissionais. Meu pai, que era médico, era favorável ao aborto. O ginecologista também.

Com o habitual espírito científico, o médico de Poliana nos colocou o problema. Era uma questão de probabilidade que tanto havíamos estudado em biologia. Era como se em um saco houvesse 4 bolas que poderiam ser 2 brancas, 1 preta e 1 vermelha ou outras combinações. Mas a decisão final era do casal, mas principalmente minha.

Meu marido e companheiro, como sempre, dava-me muita força nas horas duras, mas se colocava à distância para não influenciar minha decisão, embora eu achasse que, no fundo, ele desejava saber o futuro desse outro filho, esse mistério que só Deus sabia o que seria.

A firmeza e a fé de minha companheira de escola, Maria José, professora de biologia, que, acompanhando a minha incerteza, levou-me aos livros, a fim de me convencer que, em dois meses, o feto já formado, era um espírito presente, a quem eu e meu subconsciente já desejávamos saber o que estava reservado. E depois de 15 dias chorando, resolvi dizer sim a Deus e prosseguir com a gravidez. O tratamento de Poliana continuava em andamento numa fase difícil para ela, que se sentia debilitada antes das primeiras transfusões e aos poucos seu organismo ia reagindo e melhorando.

Para nossa alegria, em março de 1975 dei a luz a um lindo menino robusto e corado, que foi examinado pelo médico de Poliana ao nascer e aos seis meses novamente. Depois de um ano, constatamos que ele não possuía nem o traço da talassemia.

E esse médico maravilhoso que acompanhou e ficou feliz com o relato é o padrinho desse menino, Junior, que é o rapazinho sadio e alegre com suas três irmãs que se querem muito bem. Esse é o quadro da minha família “especial” como homenagem às mães de talassêmicos e às pessoas que acompanham essas crianças corajosas e sofridas.

Hoje em 2004, Poliana tem 31 anos, é vice-presidente da ABRASTA e eu, como mãe, colaboro no departamento social na organização de eventos. Ela atua como psicóloga no trabalho de atendimento a pacientes e a familiares na aceitação da talassemia, tendo uma vida produtiva e sociável.

Martha C. Roma Pacífico