![]() Leandro |
Leandro de Oliveira Ferreira Aos dois anos e meio de idade, após diversos exames para descobrir algumas dores que eu sentia, fora constatado que eu tinha talassemia e anemia falciforme (talassemia S-Beta), isso no início dos anos 80, época em que até então a incidência do problema era raríssima. Meus pais, à época professores, pessoas simples e sem conhecimento algum sobre o assunto, entraram em profundo desespero, pois uma médica que prefiro não revelar o nome lhes disse que se tratava de uma doença incurável e que eu nem sequer passaria dos cinco anos de vida. O médico que iniciou o meu tratamento, dr. Targino, do Hospital das Clínicas de São Paulo, também não deu muitas esperanças aos meus pais, dizendo que era bom eles se conformarem com a minha perda, pois esta seria inevitável ao passar de alguns anos. Médico influente não só no Brasil como em alguns países da Europa, lá ele descobriu em um seminário uma tal "bomba infusora" que seria revolucionária no tratamento de talassemia em nosso país. Ele trouxe um modelo de lá para alguns testes aqui e como eu era seu paciente, fui o primeiro a fazer uso da bombinha que se tem notícia. Como Graças a Deus existem excelentes profissionais na medicina pátria, uma enfermeira, comovida com o sofrimento de meus pais, indicou uma médica no Hospital do Servidor Público de São Paulo chamada Dra. Sonia Savaya para dar continuidade ao meu tratamento. Tratamento correto Ao chegarem lá e conversar com esta médica, que até então era pediatra e não hematologista, meus pais foram imediatamente confortados. A médica disse a eles que eu jamais morreria por ser portador de talassemia, exceto se meus pais não seguissem corretamente o tratamento. Devido ao problema, aos sete anos me submeti à retirada do baço. Após a retirada do baço, eu me senti outra criança, pois tinha mais fôlego para brincar com meus amiguinhos de escola e de meu bairro. Já podia andar de bicicleta sem dar duas pedaladas e ter de parar para descansar. Podia jogar futebol na rua sem ter de pedir tempo aos coleguinhas para tomar fôlego! Aos oito anos, já recuperado da retirada do baço e com outro ritmo de vida (o de uma criança normal), novamente estava eu em uma mesa de cirurgia, desta vez para a retirada da vesícula biliar. Esta, por sua vez, não tinha nada a ver com a talassemia, apenas havia criado pedras. Crise falcêmica Coincidentemente, após esta cirurgia, fui surpreendido certa noite por uma forte dor no peito e nas costas. Fui levado às pressas ao hospital pelos meus pais, que chamaram a Dra. Sonia. Ela de imediato deu o diagnóstico: crise falcêmica. Começava ali outra etapa de sofrimento. Essas dores fortíssimas eram praticamente insuportáveis dependendo da intensidade. Por diversas vezes, cheguei ao hospital aos berros, pedindo "pelo amor de Deus" para que alguém fizesse parar aquela dor. Ora nas costas, ora no peito, ora nas pernas, ora nos braços. Cada vez em um lugar diferente. Crises de dor sem qualquer sintoma, sem a menor previsão de acontecer: podia estar brincando na escola e ter de sair correndo para o hospital, como podia estar em casa dormindo e ter de fazer o mesmo. Minha mãezinha, tadinha, sempre ali comigo, compartilhava aquele sofrimento indescritível, muitas vezes chorando comigo e pedindo a Deus para aquela dor acabar. Inúmeras foram as vezes em que ela saiu correndo pelo corredor da ala infantil implorando para chamarem a médica para tentar uma dosagem de medicamento mais forte ou então que fizesse qualquer outra coisa para cessar a minha dor. Ocorre que não se trata de um medicamentozinho fraco, mas sim de solução de dolantina. É um remédio fortíssimo capaz de derrubar um elefante se bobear. Em mim, tão forte era a dor que em meia hora após a aplicação, lá estava eu gritando novamente, tendo que aguardar um prazo de oito horas para poder tomá-la de novo. Vida normal E assim passei a minha infância, ora em casa, ora no hospital. Sempre com a presença de minha mãe, meu pai e de toda a minha família, quando possível. Mesmo assim nunca me deixei abater. Desde criança tinha no pensamento que eu controlava a doença e não ela que me controlava. Eu corria, brincava, fazia tudo que uma criança normal faz, até mesmo levar alguns tapas por ser um pouco levado. Eu colocava a bombinha para aplicação do desferal, pois minha taxa de ferro sempre foi e é até hoje altíssima, e ia brincar na rua, andar de bicicleta, ir à escola. Nunca me senti diferente de meus amigos. Apenas sabia que tinha algumas limitações que eles não tinham. Minha adolescência não foi diferente. Quando chegou a fase dos namorinhos, encontros no shopping, transformações hormonais, encarava numa boa tudo isso. Claro que certas vezes batia uma certa revolta, pois enquanto meus amigos estava saindo para se divertir, ir em danceterias, praças, shoppings, eu estava saindo para ir ao hospital. Ficava lá uma semana e voltava. Mas superava numa boa. Somente após me mudar aos 17 anos com meus pais para Mirassol, a oito km de São José do Rio Preto, é que fui fazer um tratamento completamente voltado para o meu problema. Tive a felicidade de encontrar um grande médico com uma equipe fantástica. O dr. Carlos Maluf Homsi é uma referência no tratamento de talassemia não só aqui na região de São José do Rio Preto como em todo o país. Exercícios e fé Passei a fazer exercícios físicos para melhorar a oxigenação do sangue, além de tentar de diversas formas um tratamento para a amenização das minhas crises, o que foi conseguido com êxito. As dores foram ficando mais fracas e com menor freqüência. E claro, nunca perdi minha fé em Deus. Hoje, aos 27 anos, tenho uma vida saudável e muito, muito feliz. Concluí minha faculdade de Direito em 2002 e hoje sou advogado. Sou pós-graduado pela renomada Faculdade de Direito Damásio de Jesus, de São Paulo. Fiz um ano de cursinho preparatório para concursos no Complexo Jurídico Damásio de Jesus, morando sozinho na capital paulista por todo esse tempo. Tive algumas crises de dor, é verdade. Mas nada que me fizessem desviar do meu grande sonho: ser um promotor de Justiça! Nada nesta vida vai me fazer desistir dos meus objetivos. Quero ter meu cargo, casar, ter filhos. E se eles tiverem o meu problema também, glória a Deus, pois serão crianças felizes e muito amadas! Graças a Ele, hoje posso dizer que sou um homem realizado. Tenho tudo o que sempre pedi a Deus em minhas orações: saúde e as pessoas que eu amo ao meu lado. Enquanto tiver isso, conseguirei tudo que almejar, sempre com muita fé e luta, pois sem isso, nada possível. Durante todos esses anos de tratamento da talassemia e luta contra as dores, nunca baixei minha cabeça pra nada. Nunca me senti inferior nem pior do que ninguém. Muito pelo contrário: sempre me senti um ser abençoado, pois Deus me deu um caminho difícil, mas me deus boas pernas para vencê-lo. Tive todos os motivos do mundo para ser um encostado, um "doente", como muitos se referiam a mim. No entanto, quando alguma coisa lhe falta na vida, Deus lhe compensa com outras. E é exatamente isso que faz de mim um vencedor. Porém, acima do Nosso Pai, nada teria conseguido se não tivesse o apoio da minha mãezinha, meu pai e minhas irmãs. E nesta empreitada da vida, a ABRASTA também caminhou ao meu lado, sempre ali, pronta para me oferecer toda a sua estrutura, competência e boa vontade de todos os funcionários que por ali já passaram. Jamais fecharam as suas portas para mim ou nem sequer pensaram em fazê-lo. E é confiando em amizades sinceras como essa que eu acredito que enquanto tivermos o privilégio da vida, temos o compromisso de ser FELIZES. |
|
|
||