Depoimentos

 


Fernando
Fernando

Sou Fernando Sabino Gomes, tenho 33 anos e sou portador de sß Talassemia Intermediária. Nasci em um pequeno povoado, chamado Capivara, às margens do Rio Capibaribe, município de Frei Miguelinho, no interior do Estado de Pernambuco. Sou o primeiro de cinco filhos, e meus irmãos, graça a Deus, são todos saudáveis. Em minha família há, ainda, um primo e uma prima com talassemia intermediária.

Faço transfusões de sangue mensalmente e uso desferoxamina, que ajuda na eliminação do ferro acumulado no organismo, e o ácido fólico, que estimula a produção das hemácias.
Meus Pais são meu porto seguro, meu maior tesouro. Certamente não estaria escrevendo este simples relato se não fosse a perseverança, a garra e a coragem de minha mãe, Nair J. Santos Gomes, e de meu pai, José Sabino Gomes.

Hoje eu posso afirmar que, se não fosse a atitude dos dois em sair em busca de um tratamento e em descobrir o que eu realmente tinha, tenho plena certeza: eu não existiria.

Em 1976, aos cinco anos de idade, fomos de minha terra natal para o Recife nos aventurar, ou melhor, “tentar” descobrir o que era este meu problema, o que só aconteceu em 1981, depois de ter passado por vários serviços, no hospital da Fundação Hemope.

Ao longo dessa grande batalha, uma artilharia cruel e traiçoeira tenta nos desmotivar e nos aniquilar. E um desses inimigos, forte e cruel, é o vírus da Hepatite C, que adquiri em uma transfusão. Em 1994, fiz uma biópsia hepática que constatou a positividade do vírus. Desde então, minha vida mudou completamente, fazendo com que mudasse o rumo de minha história.

Até o momento não fiz uso de nenhum tratamento para combater o vírus da Hepatite C, pois o que existe não é recomendável para nós, talassêmicos, me fazendo conviver com os sintomas e conseqüências dessa doença.

O uso do Desferal é um pouco complicado e muitas vezes já pensei em desistir e jogar tudo pro alto, devido às diversas furadas em minha barriga. Ela já está saturada após tantas aplicações, mesmo não fazendo uso diariamente.

No início, aconteciam muitas reações: náuseas, diarréia, tonturas, mas logo depois, com as dosagens ajustadas, não houve mais problemas.

Não desistirei tão facilmente deste medicamento, que é tão precioso em nossas vidas. Por exemplo: estou eu aqui, às duas da madrugada, tentando expressar o quanto isso é importante para mim, e a bombinha de infusão trabalhando, sinto-me muito bem com o uso dele.

É uma pena que só passei a ter acesso ao Desferal a partir do ano de 94, pois até então não havia nenhuma informação de sua existência.

Espero que este meu relato sirva para que outras pessoas que passam pelo mesmo problema possam se sentir mais dispostas a enfrentar as dificuldades que esses tratamentos impõem. E que, assim como lutei com as dificuldades iniciais do tratamento e hoje me sinto bem melhor, elas possam também vencer essa fase e seguir rigorosamente a recomendação do seu médico.

Faço um apelo às mães que se recusam a fazer o uso do Desferal em seus filhos por achar o tratamento muito doloroso. Lembre-se que quanto mais cedo é iniciado o tratamento, melhor serão os efeitos e isso significa uma vida melhor para seu filho no futuro.

Agradeço à Associação Brasileira dos Talassêmicos (ABRASTA), que foi de suma importância para todos nós, com sua preocupação com o bem-estar físico e mental dos seus associados, com esclarecimentos sobre a doença e orientação quanto às melhores formas de tratamento.

Agradeço ainda à Fundação Hemope e ao seu corpo médico pela dedicação prestada aos pacientes e pela busca constante de novas formas de tratamento.

Fernando Sabino Gomes

Fernando em visita à ABRASTA