Depoimentos

 


Eduardo

Eduardo Fróes, portador de talassemia major e vereador mais votado da história de sua cidade

Eu tinha sete meses de vida, e minha mãe começou a notar que eu era muito pálido em relação a outras crianças nascidas no mesmo dia que eu, que eram bastante coradas. Ela me levou então para fazer um hemograma, que acusou hemoglobina muito abaixo do normal. Começava a sua via crucis.

A talassemia major foi diagnosticada quando eu já estava com quatro anos de idade. Até então eu era levado a tudo quanto era centro, sem ter o tratamento adequado, tendo sido inclusive submetido à retirada do baço. E, mesmo ao receber o diagnóstico correto, comecei a ser transfundido de três em três meses, e tomar Desferal injetado no músculo de uma só vez, até os doze anos. A partir dessa idade é que passei a receber transfusões mensais e fazer a quelação da maneira correta.

Foi também aos doze anos de idade que comecei a pensar na doença em si, época em que participei pela primeira vez do acampamento de portadores de talassemia em Sapucaí Mirim e minha vida ganhou novo sentido. Lá conheci pessoas maravilhosas, como o saudoso Duk. Foi durante o acampamento que comecei a usar a bombinha, doada por este grande amigo. Aliás, foram muitas as pessoas que me levaram para a frente, entre as quais destaco meus excelentes amigos cruzilienses, e também Merula, Dr. Fernando Tricta e Dr. Luiz Cláudio, de minha cidade. Com amigos como estes, foram poucas as dificuldades que encontrei pelo caminho.

Com relação à ABRASTA, não há como enumerar tantas coisas que já fizeram por mim. Minha mãe a conheceu por meio de uma revista, procurou a associação e obtivemos algumas respostas, mas não mantivemos contato. Voltamos a fazer parte desta família quando Merula assumiu a presidência. A ABRASTA é uma instituição séria e comprometida com a causa da talassemia em nosso país, dotada de meios para um tratamento de primeiro mundo no que diz respeito à doença.

Quero dizer a todos que a vida é linda assim mesmo como Deus a fez. Mesmo quando pensamos que tudo está acabado, descobrimos que para tudo há uma solução, nascemos então para um novo mundo. Em 1º de janeiro de 2005 vivi meu dia mais feliz, quando venci uma acirrada eleição em que concorri com candidatos mais experientes que eu e fui eleito o vereador mais votado da história do município. Quando tomei posse no Clube Recreativo Encruzilhadense, lotado de gente que confiou em mim, me senti a pessoa mais importante do mundo.

Hoje estou muito bem, amo o que faço e tenho muita saúde para continuar o meu trabalho. Vejo mais de perto a necessidade de meu povo, valorizo o dom da vida, que é o que há de mais belo. Dinheiro não compra a saúde, e muito menos esta dádiva de Deus que é viver. Entendo também que, como político, mesmo que não tenha a solução para todos os problemas, tenho que lutar pelos menos favorecidos. Lutar para que todos possam receber um atendimento gratuito digno, pois sei o quanto é duro depender de instituições públicas e da boa vontade das pessoas. Já vivi tudo isso, e sei o quanto dói ter que esperar por um atendimento que é de seu direito e não tê-lo.

A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, por isso cante, chore, ria e viva intensamente cada momento, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.