12ª Conferência Internacional sobre Quelação Oral em Talassemia e outras
Doenças





Prezados(as) Senhores(as)


No início de julho de 2002 foi realizada na Grécia a 12ª Conferência Internacional sobre Quelação Oral em Talassemia e outras Doenças. Anualmente cientistas, médicos, profissionais da saúde e pacientes com talassemia reúnem-se para discutir as últimas descobertas no campo do desenvolvimento de novos quelantes de ferro e atualizar a experiência com os medicamentos já disponíveis e conhecidos aqui no Brasil. A importância da terapia quelante na talassemia é reconhecida por todos, assim como a necessidade de melhorá-la tanto em eficácia, através do desenvolvimento de drogas mais eficazes do que as disponíveis, quanto no aspecto da facilidade da administração, por exemplo com o desenvolvimento de quelantes orais. A presença de autoridades acadêmicas de várias partes do mundo e o interesse da indústria farmacêutica no desenvolvimento de novos compostos dá a dimensão da importância do assunto e das perspectivas de melhora a cada ano.

Com o apoio da Abrasta pudemos compartilhar destas informações, que com certeza serão de extrema utilidade para nossos pacientes.

A importância da quelação do ferro foi reforçada em vários momentos da conferência como uma parte fundamental do tratamento da talassemia. Há cerca de 20 anos iniciou-se a terapia quelante "moderna" com o uso contínuo da desferrioxamina (DFO) de forma subcutânea, provando que o uso correto da quelação de ferro resulta em grande melhoria na sobrevida.A doença cardíaca ainda permanece como causa de óbito de até 80% dos talassêmicos que não fazem a quelação de ferro de forma adequada.

O foco da conferência foi o papel dos quelantes orais - em especial do deferiprone (L1), único quelante oral já liberado para uso em pacientes - no que diz respeito a sua eficácia e segurança. Drogas para uso oral podem melhorar a adesão ao tratamento e a qualidade de vida, aumentando a eficácia do tratamento. Como toda novidade em medicina, é necessário tempo até que um novo tratamento possa ser incorporado à prática diária. Mais de dez anos de experiência já se acumulam em relação a este quelante, de modo que tanto sua eficácia, suas limitações e os principais efeitos colaterais já estão bem estabelecidos. Todas estas informações vêm permitindo que a droga seja usada cada vez mais em diversos países, não só como substituto da DFO, mas principalmente em combinação com esta. O uso combinado do L1 com a DFO vem apresentando resultados promissores tanto em termos de eficácia quanto em termos de diminuição dos efeitos colaterais, na medida em que pode permitir a diminuição da dose de cada uma das medicações. A chegada do L1 não deve ser vista como algo que venha a substituir a DFO mas algo que venha a se somar e trazer novas opções.

Atualmente o tratamento combinado surge como opção para cerca de 30% dos pacientes. Um importante dado obtido na Inglaterra foi que o tratamento combinado entre L1 e DFO é tão eficaz quanto a DFO em infusão contínua para reverter a doença cardíaca.

Os efeitos colaterais mais comuns do L1 foram náuseas, vômitos, dor abdominal, dores articulares e artrite leves a graves, neutropenia, aumento de enzimas do fígado como ALT/AST e, mais raramente agranulocitose. Destes, apenas o último prejudicou o reinício do tratamento, e nos demais o tratamento foi reiniciado ou apenas ajustado sem recorrência. Portanto, recomenda-se a realização de hemogramas semanais durante o 1º ano de tratamento, podendo talvez espaçá-los após este período, na medida em que a maioria dos casos de neutropenia ou agranulocitose ocorrem no 1º ano de tratamento com L1. Muito se discutiu sobre a progressão da fibrose hepática associada ao uso do L1, porém foi apresentado um trabalho que provou não haver evidência de qualquer associação com fibrose, seja nos pacientes com ou sem hepatite C. Ao contrário da DFO, o L1 não parece promover o crescimento da Yersinia enterocolitica.

A importância destes conhecimentos é de permitir que cada paciente receba um tratamento adequado conforme suas características, que incluem não só a já conhecida ferritina, mas também outros parâmetros que vêm sendo cada vez mais estudados com o intuito de permitir um melhor acompanhamento de cada indivíduo. Este foi outro tema bastante discutido e várias estratégias como ressonância nuclear magnética (RNM) e técnicas de biosusceptometria magnética (SQUID) foram temas de palestras da conferência. Recentemente, a disponibilização de métodos de RNM para quantificação do ferro cardíaco e hepático trouxe novas expectativas para a possibilidade de uma terapia quelante mais direcionada a cada paciente. Estes métodos ainda carecem de padronização, mas os dados até agora demonstram que o seu uso, associado a novos agentes quelantes, devem trazer benefícios aos pacientes com talassemia.

Assim, a perspectiva geral da quelação de ferro em talassemia mostrou-se positiva diante dos resultados que apontam para o importante papel dos quelantes orais no tratamento da talassemia, do número crescente de drogas em desenvolvimento e, principalmente, da compreensão de todos de que uma terapia quelante mais eficaz, mas também mais confortável deve ser nosso objetivo.

O caminho para um tratamento mais eficaz e humano da talassemia é uma estrada sem limites que com certeza já está sendo percorrida a passos cada vez mais largos. Dialogue com seu médico!

Mônica Veríssimo (Centro Infantil Boldrini - Campinas)
Sandra Loggetto (Centro de Hematologia de São Paulo - São Paulo)
Erich de Paula (Unicamp - Campinas)
Giorgio Baldanzi (HCUFPR /HEMEPAR - Curitiba)

Leia também o resumo técnico da conferência